Thursday, May 26, 2011

#4

Faz as contas à vida. Mas não contes com os dedos, nem de cabeça, vais-te enganar. Vais confundir o 3 com o 8, o 4 com um A maíusculo, e de A maíusculo já eu sofro.

Usa uma calculadora. Científica. Exacta. O mais precisa possível. Preciso de saber, dá-me um limite. Os sapatos, esses que me ainda não me magoam os pés, tenho a certeza de que estarão ligeiramente apertados. Certeza científica. Calculei.

Mas. Mas dá-me um indicador, um polegar, a mão toda e o braço. Inteiro. Um número. Só um. Os que proferires depois desse não terão qualquer importância. Porra.

É fácil.

(Deita a emoção pela janela, só desta vez. E não me faças repetir.

Por favor.

Com A maíusculo.)

Friday, March 11, 2011

#3

Ás vezes rumo sem rumo. Ás vezes repito-me, incessantemente, qual cadência de palavas cujos sons encaixam exactamente onde deveriam encaixar.

Ás vezes rumo sem rumo, e cria-se uma tal urgência de ti cuja magnitude é imensurável. Porque é que a minha cabeça se ajusta em ombro nenhum, tento compreender. Irrito-me com a inevitabilidade das coisas quotidianas. Não me sabe bem ser assim. Quero explodir, quero tanto explodir. Criar todo um novo universo a partir do núcleo desta inocência, desta dor proactiva que me deixa em paz. O descanso é algo relativo; estou constantemente des-cansada. Cansada dez vezes. Cansada de carregar nos ombros a mentira de não poder possuir força, restringida, de me sentir demasiado grande para ser pequena. Anda cá.

Ás vezes quero tanto uma coisa que não sei por qual ponta lhe pegar. E tu, raios, tu pegas-me pela ponta mais afiada. E eu ainda tenho medo de te cortar.

O sangue é roxo.

Thursday, January 27, 2011

#2

Arrancas-me os ossos pelas unhas, e convences-me de que não dói. Eu acredito. A sério. Acredito, porque me comes desenvergonhadamente a alma sem tirar os olhos de mim, e nada posso fazer se não acreditar.

Não é por esse facto que o frio deixa de conseguir completar a tarefa de penetrar o mais fundo possível no simples ser; obviamente que os pés continuam cá nesta terra, e de cá não irão sair - sinto-os como blocos de cimento aparafusados ao tecto do universo. É sim, contrariadamente pelo facto de me suspirares ao ouvido coisas que eu já ouvira antes, era uma vez, e das quais estive à espera, impaciente, sentada numa daquelas cadeirinhas plásticas e imaculadas durante demasiado tempo.

Tenho o pé dormente. Será meu, sequer?

Palavras cuja cadência eu re-conheceria em qualquer vida, um tom de voz que faz oscilar a penugem do cabelo num vácuo, num vazio, num nada.

Cheiros daqueles que aprendes em criança. Sabes? Aqueles que voltas a sentir passado uma chapada de anos, e te deixam tão atordoado como o próprio tempo a passar - a passar a ferro, a passar a limpo, a passar a negro, a passar apressado. A passar. Por ti. E, bolas, és salgado e doce ao mesmo tempo.

Descalça-me. Quero levantar-me, para que me leves ao colo, por aí.



(Desta vez, deixa-me cair sobre ti. Estou farta da renda ladrilhada do chão. Merda.)